Chile, 1973

Bruno Miguel Filipe ·
 Chile, 1973

«Pagarei com a minha vida a lealdade do povo.»

- Salvador Allende, durante o bombardeamento do Palácio de La Moneda, onde falecera.

Há 47 anos o Chile fora vítima de um ataque de cunha imperialista contra a vontade do povo chileno de erguer um governo de esquerda, um governo popular, do povo e dos trabalhadores, um governo socialista.  O golpe militar de 11 de Setembro de 1973, financiado pelos Estados Unidos da América (algo que não surpreende ninguém), tinha como propósito derrubar o governo socialista de Salvador Allende e implementar uma ditadura militar que durara quase duas décadas. 

I Bombardeamento do Palácio de La Moneda 

Eram sete horas e trinta e cinco minutos da manhã, do dia 11 de Setembro de 1973, quando o Presidente Salvador Allende havia chegado ao Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile, e reunido com os seus assessores e guarda pessoal. Estes teriam sido informados de que, em Valparaíso, um grupo de marinheiros teria desembarcado. 

Vinte minutos mais tarde, Allende dirige-se pela primeira vez, através da rádio, ao seu povo: 

O povo e os trabalhadores, fundamentalmente, devem estar activamente mobilizados, mas nos seus postos de trabalho, escutando as chamadas que vos são dadas pelo vosso camarada Presidente da República.” 

O tempo avança, eram já oito horas e quarenta e cinco minutos da manhã, e o véu que encobria o golpe de Estado rapidamente se levanta e eis que a magnitude do mesmo era maior do que aquilo que inicialmente se julgava ser, pois os quatros ramos das Forças Armadas estão envolvidos no ataque à democracia chilena. 

O Presidente Allende dirige-se, mais uma vez, aos trabalhadores e trabalhadoras; e a mensagem é clara: 

“Não darei um passo atrás. A situação é crítica, fazemos frente a um golpe de Estado em que participam a maioria das Forças Armadas.” 

Às nove horas e dez minutos daquela fatídica manhã de 11 de Setembro, em 1973, é consumado o golpe de Estado levado a cabo pelas Forças Armadas chilenas, traidoras da própria pátria, carrascos do próprio povo, inimigos da democracia. O governo popular, democrático e socialista, de Salvador Allende havia sido derrubado; e ao nosso camarada não lhe restava outra opção, o Presidente Allende dirige-se pela última vez ao povo chileno: 

Compatriotas: «Esta será seguramente a última oportunidade em que m eposso dirigir a vocês. A Força Aérea bombardeou as torres da Radio Portales e da Rádio Corporácion.

«As minhas palavras não têm qualquer amargura, senão decepção, e serão elas o castigo moral para os que trairam o juramento que fizeram… soldados do Chile, comandantes em chefe, o almirante Merino que se autodesignou, mais o senhor Mendonça, general rastejante… que ainda ontem manifestou a sua fieldade e lealdade ao governo, também fora nomeado director-geral dos Carabineros.

«Face a estes factos, só posso dizer aos trabalhadores: Eu não irei renunciar! Colocado num trânsito histórico, pagarei com a minha vida a lealdade do povo. E digo-vos que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência, digna de milhares e milhares de chilenos, não pode ser colhida definitivamente.

«Têm a força, poderão subjogarnos, mas não impedirão os processos sociais nem com o crime… nem com a força. A história é nossa e são os povos quem a fazem.

«Trabalhadores do meu país: quero agradecer a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram num homem que foi apenas um intérprete de grandes anseios de justiça, que deu a sua palavra de que respeitaria a Constituição e a lei e assim o fiz. Neste momento definitivo, o último em que me posso dirigir a vocês, quero que aproveitem a licção. o capital estrangeiro, o imperialismo, junto com a reacção, criaram o clima para que as Forças Armadas quebrassem a tradição, aquela ensinada por Schneider e reafirmada pelo comandante Araya, vítimas do mesmo sector social que hoje estará em casa, esperando com a mão alheia reconquistar o poder para continuar defendendo as suas granjas e os seus privilégios.

«Dirijo-me, sobretudo, à modesta mulher da nossa terra, à camponesa que acreditou em nós; à operária que mais trabalhou, à mãe que soube da nossa preocupação com os seus filhos. Dirijo-me aos profissionais da pátria, aos profissionais patriotas, aos que durante dias trabalharam contra a sedição promovida pelas Associações profissionais, associações de classe para defender também as vantagens que a sociedade capitalista dá a poucos. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e entregaram a sua alegria e o seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, aos que serão perseguidos… porque no nosso país o fascismo já estava presente há muitas horas nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando a linha férrea, destruindo os oleodutos e os gasodutos, perante o silêncio de quem tinha a obrigação de proceder: estavam comprometidos. A história os julgará.

«Seguramente, a Rádio Magallanes será silenciada e o metal sereno da minha voz não chegará até vocês. Não importa, eles continuarão ouvindo. Estarei sempre ao vosso lado. No mínimo, a minha memória será a de um homem digno que foi leal à lealdade dos trabalhadores.

«O povo deve defender-se, mas não se deve sacrificar. O povo não deve deixar-se ser devastado e ferido, mas também não se deve humilhar.«Trabalhadores do meu país: tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens superarão este momento cinza e amargo, onde a traição se tenta impor. Continuem sabendo que, mais cedo ou mais tarde, as grandes avenidas pelas quais passa o homem livre se abrirão novamente para construir uma sociedade melhor.

«Viva o Chile! Viva o povo! Vivam os trabalhadores!

«Estas são as minhas últimas palavras e estou certo de que o meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, no mínimo, haverá uma lição moral que punirá o crime, a covardia e a traição.»

— Salvador Allende, durante o bombardeamento do Palácio de La Moneda, onde falecera. 

Até sempre camarada Presidente Salvador Allende. 

II Massacre nos Estádios

Após consumado o golpe de Estado e implementada a ditadura militar de Pinochet, os trabalhadores chilenos, leais ao falecido camarada Presidente Salvador Allende, não arredaram pé dos seus postos de trabalho, ocupando-os e defendendo-os como podiam com as ferramentas e instrumentos que tinham.

Ora, os camaradas leais acabariam por ser levados, à força bruta dos traidores, para um dos dois maiores estádios de Santiago, o Estádio Nacional do Chile e o então Estádio Chile onde dezenas de milhares de presos políticos foram torturados e muitos deles executados.

No meio de tantos nomes, um, embora igual aos outros tantos, é exaltado e relembrado com mais força: Victor Jara — professor, director de teatro, poeta, cantor, compositor, músico, activista político, comunista. O golpe militar surpreende Jara na universidade, onde ele é então detido, com outros camaradas, alunos e professores, e conduzido, contra à vontade, até ao Estádio Chile. Victor terá sido mantido durante vários dias dentro do Estádio, onde fora torturado (ele assim como os outros camaradas). Victor Jara, veria as suas mãos serem esmagadas para que náo pudesse jamais tocar uma guitarra, um «castigo» dos traídores e carrascos do povo ao seu trabalho de consciencialização social dos sectores mais desfavorecidos da sociedade.

Após ter sido executado a tiros, no dia 16 de Setembro de 1973, o corpo de Victor Jara fora lançado num mato perto da Estrada Sul, na parte posterior de um cemitério, juntamente com os corpos de outros três camaradas. Tendo, em seguida, sido levado apenas para que a sua esposa, Joan Turner, o identificasse. Victor Jara tinha em seu corpo, 44 marcas, dos 44 tiros com que fora executado, e numerosos ossos fracturados.

Nos dias de cativeiro, antes de ser executado, Victor Jara escrevera um poema que fora conservado por um camarada:

«Somos cinco mil aqui.Nesta pequena parte da cidade.Somos cinco mil. Quantos somos no total nas cidades e em todo o país?Somos, aqui, dez mil mãos que semeiam e fazem andar as fábricas.

«Quanta humanidade com fome, frio, pânico, dor, pressão moral, terror e loucura? Seis dos nossos se perderam no espaço das estrelas.Um morto, um espancado como jamais acreditei que se podia espancar um ser humano. Os outros quatro quiseram remover todos os seus medos, um saltando ao vazio, outro batendo com a cabeça contra a parede, mas todos com o olhar fixo da morte.

«Que aterrorizante é o rosto do fascismo!Levam a cabo os seus planos com precisão tortuosa, sem se importarem com nada.O sangue para eles são medalhas.A matança é um acto de heroísmo.

«Foi este o mundo que criaste, meu Deus?Para isto os teus sete dias de assombro e trabalho?

«Nestas quatro paredes há apenas um número que não progride.Que lentamente quererá a morte.

«Mas de repente me bate na consciênciaE vejo esta maré sem batidaE vejo o pulso das máquinasE os militares mostrando o seu rosto matronal cheio de doçura.

«E o México, Cuba e o mundo?QUe gritem esta ignomínia!

«Somos dez mil mãos que não produzem.Quantos de nós há em todo o país?

«O sangue do camarada PresidenteBate mais forte do que bombas e estilhaços.Assim baterá nosso punho novamente.

«Canto, que mal me saisQuando tenho de cantar o horror.Horror como o que vivo, como o que morro, horror.De me ver entre tantos e tantos momentos do infinitoEm que o silêncio e o grito são as metas deste canto.

«O que nunca vi, o que senti e o que sinto farão surgir o momento…»

— Víctor Jara, «Estadio Chile/Somos Cinco Mil» 

Até sempre camarada Victor Jara.